Sinara Rúbia é uma professora negra de 43 anos. Aos 25, na busca por apresentar referências literárias negras para sua filha, a pequena Sara, então com três anos, sofreu com a escassez do tema na literatura nacional. Foi basicamente ali que nasceu a ideia de criar Alafiá, a princesa guerreira negra que ganhou seu primeiro livro.

A escritora conta que a personagem ganhou corpo durante a sua monografia, quando fez uma pesquisa de campo com meninas negras de 5 a 12 anos de escolas da rede pública de Petrópolis, objetivando ver de que maneira o universo da literatura infantil influenciava na construção da identidade de uma criança negra com a presença hegemônica de personagens brancos com biotipo europeu.

“[Em 2003] foi quando eu me deparei com este tema, comecei a procurar personagens e referenciais dentro da literatura. Entendi a escassez e praticamente ausência de personagens negros com referenciais positivos e saudáveis. Quando tinha, eram sempre estereotipados e narrados de uma outra forma a partir do racismo”, disse Sinara.

“O fato interessante foi que a maioria das entrevistadas não se interessava pela história em si, e sim pelo biotipo da personagem. Diziam que gostavam do cabelo, dos olhos, do corpo, mas sempre quando questionadas sobre se mudariam algo nelas, alteravam justamente essas características, trazendo para uma aparência mais próxima da delas: um cabelo mais enrolado, um tom de pele ou o olho mais escuro”, recorda.

Hoje, Sinara administra cursos de contação de história negra e de literatura infantojuvenil. Ao longo dos anos, ela percebeu que era uma das poucas pessoas que fazia este tipo de trabalho, incluindo a aplicação da Lei 10.639, que trata da obrigatoriedade do ensino da história e cultura afro-brasileira nos estabelecimentos de ensino público e privado. “A literatura infantojuvenil vem crescendo, a gente vem tendo um número de pessoas interessadas nessas narrativas. Infelizmente ainda tem quem esteja mais voltado para o mercado e repete estereótipos, apesar de colocar a criança negra”.

O conto, escrito em 2007, após a conclusão da monografia, se transformou em livro que foi lançado, no dia 15 de junho de 2019, no Museu de Arte do Rio (MAR), na Praça Mauá. “Essa história surgiu por conta do resultado da minha monografia e segue a mesma estética dos contos de fada. Tem a aventura, só que a minha princesa é uma princesa negra, que foi escravizada, se tornou guerreira e quilombola, que resistiu à escravidão com resiliência. Tem a questão do amor também, mas não é com um homem que resolve todos os problemas e leva ela para viver submersa em um castelo. É uma princesa que casa e se apaixona pelo chefe do quilombo, inspirada na trajetória das mulheres negras do Brasil”, indicou.

O livro, segundo Sinara, foi a forma de ampliar o universo da princesa Alafiá, que até ali ficava restrita aos momentos de contação de história de que participava. “Resolvi colocar a história no livro, para ela, além da minha voz na contação de história e do meu trabalho, circular com uma abrangência maior da proposta que fala de mulher, de empoderamento feminino, da história do negro no Brasil e da história do Brasil em uma outra perspectiva da literatura infantojuvenil”, disse.

Alafiá é uma princesa africana, do antigo reino de Daomé, que veio capturada para o Brasil, através do tráfico negreiro no período da colonização portuguesa. Na luta contra a escravidão, se tornou uma guerreira quilombola.

Com todos os elementos de uma história comum de princesa (drama, aventura, encantamentos, uma história de amor e um final feliz), a história de Alafiá usa o empoderamento negro e feminino e faz uma reflexão sobre temas atuais. Baseada em fatos reais, mostra a mulher negra que veio para o Brasil através do tráfico negreiro e levanta o debate étnico-racial da valorização da cultura negra e da educação antirracista.

“Sabemos que vieram reinados africanos completos para o Brasil na época de escravidão. Sociedades extremamente organizadas foram colocadas em navios sem saber para onde iriam. A história da Alafiá é a história que a própria história não conta. São histórias do povo negro que ninguém aprende, mas que causam um dano enorme”, diz a escritora.

Apesar de a estrutura da obra ser a mesma de histórias famosas de princesas, como a própria Sinara diz, os objetivos da protagonista são bem diferentes dos contos de fada clássicos.

“O objetivo da Alafiá é diferente de viver feliz para sempre com um príncipe submersa em riqueza. Ela é uma princesa que se tornou escrava, fugiu da senzala e se tornou guerreira quilombola. É uma história de luta, de resistência, de resiliência, mas também é uma história de amor, já que ela também se apaixona por um guerreiro do Quilombo onde foi acolhida”, explica.

De origem iorubá, Alafiá significa “o que é verdadeiro”, “caminhos abertos” ou “felicidade”.

“Apresento mais de 200 obras de literatura infanto juvenil nos meus cursos, a maioria deles inéditos para os participantes por conta da representatividade negra das histórias. Ensino o ofício de contar histórias com inspiração griô, que são os grandes contadores de histórias da sociedade africana. A história da Alafiá sempre foi o carro-chefe desse conteúdo. As pessoas sempre me questionavam aonde estava o livro, que gostariam de ter a história em casa e, agora, tive a oportunidade de publicar o meu primeiro livro”, diz.

Visualmente, a princesa guerreira foi inspirada na ancestralidade da autora. “A Alafiá se parece com Oyá, que também é conhecida como Iansã. Uma mulher negra, guerreira da religião de matriz africana e tem bastante esse elemento de inspiração. Ela poderia ser qualquer mulher negra poderosa, como Dandara dos Palmares, a mulher de Zumbi dos Palmares. É uma personagem para as pessoas simpatizarem e se reconhecerem”, afirma.

Estreia tripla

A escritora disse que entre as editoras brasileiras, cerca de 10 fazem um trabalho específico de literatura infantojuvenil voltada para a cultura negra. O livro foi publicado pela Editora Nia Produções Literárias, de Tatiane Oliveira e ilustrado pela artista plástica Valeria Felipe. Foi uma estreia para as três. Tatiane tem uma livraria itinerante que leva a diversos eventos e Valeria, embora tenha muitos trabalhos de pintura, nunca tinha se dedicado à ilustração de livros.

A artista plástica explica que para fazer o trabalho precisou estudar um pouco a história de negros escravizados, como a princesa Alafiá, que pertencia ao antigo reino de Daomé e chegou ao Brasil em navios durante o período de colonização portuguesa.

“A experiência de ilustrar é mais um resgate para mim também como referência, até porque eu sou preta. No meu tempo de escola não tive história de cultura preta. Fui pesquisar a história. Tive que entender o que aconteceu em Daomé e porque hoje é Benin, quem foi o povo que invadiu lá e quem morou ali. Passei a ter um resgate da história que não vivi quando criança”, disse Valeria.

Os interessados na compra de um exemplar podem adquirir um exemplar diretamente pelo Facebook da autora. Basta procurar por ‘Sinara Rúbia Cultura e Arte Griô’ na rede social. O preço é de R$ 36.

*Com informações de Agência Brasil.

RECOMENDAMOS



COMENTÁRIOS




Revista Ecos do Saber
"Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina." - Cora Coralina